naufrágio no pacífico
coincidiu com a época do meu último suspiro aqui no blog um momento mental de incríveis fantasias com o mar. tornou-se de repente constante essa visão de mim mesmo com os outros marujos correndo pelo convés e recolhendo as velas enquanto todos eram assolados por uma tempestade completamente horrível que deixava céu e oceano tudo escuro.
em outras circunstâncias, eu teria me imaginado um rockstar (com uma flying v) ou uma linda miss (como sempre). mas há 3 anos pouca coisa era tão bela quanto partir em aventuras marítimas rumo a qualquer coisa, das quais o objetivo era afinal dominar o próprio mar. bronzeado e intrépido, eu observava da torre do mastro o mundo conhecido cada vez mais longe, ao mesmo tempo em que aguardava o próximo embate contra a força dos elementos.
não sei o que de concreto possa ter inspirado essa vontade de enfrentar a natureza, no lugar do simples desejo de buscar o seu refúgio, como de costume. realmente não lembro. o que sei é que acabei vivenciando esses delírios na fofura do meu leito, tentando dar conta, no remanso entre o sono e a vigília, de clássicos que eu ainda nunca tinha lido: as viagens de gulliver, robinson crusoé e moby dick.
o problema é que até hoje só consegui terminar o primeiro: quis ler tudo junto, terminei dispersando e, quando vi, já tinha entrado na fase de querer ser astronauta. o que mais ressinto, porém, são os 100 capítulos de moby dick diante dos quais fui congelado, pois mal cheguei a conhecer direito o capitão ahab e não sei como julgá-lo. daí que entra fase, sai fase, e, assim como todos, sempre acho que preciso voltar lá e resgatar a parte que me é de direito dessa baleia branca impossível.
que é o que talvez eu faça ou talvez não faça assim que terminar esse outro, que sei lá por que também tem a ver com o tema dos mares: no ano de 1643, um náufrago chamado roberto de la grive se vê tragicamente exilado num navio deserto (não sabe nadar e não tem bote), ancorado não muito longe de uma ilha remota, em cuja praia acreditava-se atravessar o meridiano que dividia a terra plana entre o ontem e o hoje. não só pelo tédio ou por sobrevivência, mas também pela chance de viver essa magia, chegar até a ilha se tornou missão de honra.
ao contrário do que pode parecer, entretanto, não foi essa leitura que me trouxe a lembrança de moby dick, mas um insuspeito episódio de arquivo x. enquanto analisa a obsessão do agente mulder pelo inexplicável, a agente scully ouve o seguinte desabafo:
scully: sabe, mulder, você é o ahab.
mulder: interessante que diga isso, porque eu sempre quis uma perna de pau. é uma coisa de infância que nunca superei. não estou brincando, pensei bastante a respeito. com uma perna de pau, ou ganchos no lugar das mãos, talvez seja o suficiente para ir vivendo, enfrentando a vida com uma deficiência. sobreviver apenas já seria heroico. mas, sem isso, as pessoas esperam que faça alguma coisa da sua vida – ganhar um aumento, usar uma gravata. então, por isso, sou a antítese do ahab, porque, se tivesse uma perna de pau, eu provavelmente seria mais feliz e não sentiria necessidade de caçar criaturas do desconhecido.
claro, era 1996 e talvez esse diálogo hoje nem pudesse ir ao ar. no entanto, achei na hora que bem podiam ser minhas tais palavras, ditas enquanto eu comia umas boas semente de girassol vestido com aquela camiseta ~sem esperanças, sem cobranças~. hoje continuo sem saber o que despertou a sede de sangue de ahab, se ele estava com fome de carne de baleia, quem acabou matando quem, se moby dick era na verdade um kraken etc. mas se eu me volto pro relato de roberto de la grive (até onde li), vejo um herói muito circunstancial, que, justamente por não ter nada a perder, desenvolve uma forte ambição. ele decide inclusive aprender a NADAR, o que pra mim é o ápice da motivação.
no fim, parece que me encontro novamente no caminho cruzado pela dúvida entre fugir e lutar, entre o cão e o gato. vejo como nossas fraquezas nos empurram em alternadas direções – de repente a perna de pau ERA a razão de tanta brabeza – e espero que o próximo movimento dessa maré muito doida me carregue pelo menos a um lugar confortável, tanto faz se pra frente ou pra trás, pra torre do mastro ou pra velha terra firme.
