o lindo e o massa

By Dr. No No No

é estranho esse fenômeno do “gênero favorito: drama”. esse fenômeno de gostar de se emocionar, de se dispor a isso, de se reunir em torno daquela história carregada, intensa, trágica, de se entregar aos violinos ao fundo e acabar enxugando as lágrimas e assoando o nariz no mesmo lenço de papel. é como um prêmio, às vezes. como renovar sua condição humana, se sentir vivo na região do peito. mas, claro, digo se emocionar de forma segura, de modo que a gente não precise se envolver, e fique só empatizando de longe e curtindo esse barato eletroquímico.

é meio isso o que acontece com os filmes. e com a arte, e as músicas nos discos, e as notícias na tv, e os arquivos confidenciais em faustão, e os comerciais de margarina de uma forma geral. há uma certa realização macabra em se jogar na emoção. e isso parece meio coisa de emo, all right. mas fazendo um brainstorm sobre nossos filmes favoritos, por exemplo, não deve ser difícil ver surgirem nomes que nos fizeram chorar tesos na cadeira do cinema e nos deram aquela mãozinha no interessante processo de lavar a alma. quantos dos putaquepariu-que-filme-lindo a que assistimos não são aqueles que a gente passa alguns minutos ainda catatônico diante dos créditos já subindo? e quantas vezes esse truque não é usado pra fazer a gente acreditar que um filme de merda é realmente lindo?

há, porém, nessa lista de filmes favoritos aqueles filmes excitantes e bem produzidões, que vamos chamar de massa, junto a esses emocionantes e chorativos, a que chamamos de lindos. eu particularmente tenho essa tendência bunda-mole a chamar os lindos de favoritos. na verdade, qualquer coisa em que os corações apareçam sangrando é um favorito. e é aí que entra meu pedido de desculpas por duas coisas que têm me perseguido no último mês. ou que eu tenho perseguido, acho mais justo.

a primeira delas é um flashback musical aos anos 90, época em que a música ardia de densidade sentimental, e a uma banda específica. as enciclopédias afirmam que o sunny day real estate, que descobri há pouco tempo, talvez tenha sido um dos grupos que mais sentimentalmente trataram a sentimentalidade nessa década, e lhes agraciaram com o título de difusores do emo. e daí que, sem franja engomada ou lápis de olho, e salvo uma levadinha cpm aqui e algumas (várias) baladinhas cabisbaixas ali, eles mostraram que podem ser mesmo uma das raízes dessa porra toda, porque o sumo não-técnico do emo tá lá – o drama. os corações sangrando. a emoção. o lindo. mas também o massa, porque não é qualquer nx zero que sabe lhe conduzir com dedilhados e riffs, entre a melosidade e a zoada, a esse estado.

a outra margem do vale de lágrimas é “sociedade dos poetas mortos“. ok, para alguns dos distintos leitores é o mesmo que dizer “choro vendo titanic”. e eu sei que é um filme com lições açucaradas, sobre aventuras adolescentes, sonhos adolescentes, medos adolescentes E tem robin williams de protagonista. mas talvez eu tenha mesmo 17 anos então, porque não consigo não me identificar com tudo isso, como se cada descoberta dos personagens fosse minha. tudo no filme é singelo, cheio de passagens tocantes, e me faz querer revê-lo, porque me sinto vivo na região do peito toda vez que o assisto; vivo, terno, jovem, invulgar, com uma emoção que me recompensa e me faz pensar em coisas. uma delas é que o lindo, no fundo, é um poeticamente massa. e é vital. e que às vezes a gente se emociona mais por causa da beleza do que da tristeza.

*shora*

e ainda é uma possibilidade que eu reassista titanic daqui a 10 anos e descubra que é um dos filmes da minha vida, who fucken knows?

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8 Respostas para “o lindo e o massa”

  1. Lentamente Conclusiva Disse:

    Sim sim!

    Concordo que é muito tênue a linha que separa o que nos emociona de verdade daquilo que consideramos “mela-cueca”…
    Lembro que a primeira vez que assisti Sociedade dos Poetas Mortos me senti como aqueles caras, mas dia desses tava passando na TV quando cheguei umas 2 da manhã e não conseguia dormir… Assistindo agora não me identifico tanto quanto na época, acho que algumas coisas a gente tem que guardar na memória mesmo, porque elas emocionaram quando tinha um contexto por trás que já passou, já foi vivido… Mas dou valor ao filme!

    É engraçado, ando nostálgica também e dia desses tava remexendo aqui pra arrumar o guarda-roupa e encontrei umas músicas que escrevi há um tempo… Cara, nada parecido com a Lentamente de agora… Mas é isso, você vai acumulando milhas na vida, os pesos vão se diferenciando, talvez isso seja a graça de tudo. Ou desgraça, depende de como você percebe tudo em volta nê!

  2. brendons Disse:

    o cinema faz parte de mim. é um órgão vital. por isso que cronenberg é meu pastor e nada me faltará.
    não consigo deixar de me emocionar com algumas arritmias que esse órgão me proporciona. sociedade dos poetas mortos sempre foi pra mim quase um infarto. não conseguia assistir sem me arrepiar até a espinha e sem chorar (mesmo que por dentro, quase uma hemorragia interna).
    isso foi há muito.
    hoje ele não me causa o mesmo efeito. talvez eu tenha endurecido, talvez o próprio filme tenha endurecido dentro de mim.
    cronenberg explica esse fenômeno muito bem. com certeza é o que melhor desempenha esse papel, e também tem os melhores desfibriladores.
    mas eu tenho saudades de alguns infartos certeiros, como a emoção que era ver sociedade dos poetas mortos, pelo menos uma vez por ano.
    cansei de pequenas arritmias.
    preciso que minha ponte de safena se rompa mais vezes. alguém, por favor, me convida pra ver sociedade dos poetas mortos. quero sentir meu braço formigar de novo.

  3. lól Disse:

    que saudade de ler seus textos.

  4. Lentamente conclusiva Disse:

    Brendon você quer realmente arriscar suas lenbranças pra assistir de novo? Como falei antes, acho que a gente termina endurecendo, o que em alguns casos é uma coisa boa, mas a vida termina perdendo um pouco da inocência e da beleza…

    Não sei… Minha vida sempre foi tão audio visual que tem músicas/filmes que me emocionam até hoje, mas tento ouvir/ver com parcimônia.

    Magnôlia mesmo é um filme que arranca meu coração, e ele tem a combinação audio/visual perfeita… Aquela cena que sobe a música de Aimee Mann é foda, com todos os personagens cantando… Lindo demais.

  5. brendons Disse:

    não leio magnólia, apesar de respeitar mt Paul T. Anderson.
    e respeitar o filme tb.
    pois entendo a sensação.
    eu sinto o msm com o início de Psicose.
    a cena em que marion tá com o namorado (casado), e ele fala que não pode prometer nada a ela, pq se eles forem morar juntos têm q morar num porão e ela teria que lamber os selos das cartas de pensão pra mulher dele.
    ela, com a maior calma do mundo diz: eu lamberia os selos.
    :)

    me destrói.
    é isso q eu sinto em relação a esses filmes. apesar de todos os contras incluídos, eu não me importo em arriscar uma imagem positiva que eu tinha, assistindo depois de amadurecido (e contraditoriamente endurecido). só pela experiência, eu lamberia os selos.

  6. Dr. No No No Disse:

    eu digo que sociedade dos poetas mortos é mela-cuecão e tals, mas ele fala de uma coisa importante pra mim – e é por isso que eu me identifico e me emociono.

    o filme mostra essa coisa da importância da poesia e da (ha!) beleza em nossas vidas. por isso que há sempre uma chance de eu me emocionar tanto quanto (ou BEM mais do que) quando eu era guri, e só chorava porque, meudeus, alguém morreu na história.

    mas meu sentimento com filmes é por aí. gosto do que me faz ficar sem graça de emoção. e isso ainda é um mistério muito grande pra mim, velho.

  7. brendons Disse:

    disse tudo.

  8. Lentamente Conclusiva Disse:

    Eu gosto da sensação de engolir seco. De martelar uma frase na cabeça por pelo menos um mês, e principalmente, a sensasão de que você não é o unico me deixa sem ar. Agora de verdade!

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