eu tava pensando nessas coisas de futuro e decisões e essas coisas que a sociedade (hahaha) te obrigam a escolher. mentira, sociedade nada, esse conceito de coisas-que-a-sociedade-massa-geral-população-governo-sistema-trem-andando-te-obrigam-a-escolher é pura invenção de alguém muito perdido.
eu acho engraçado como as coisas vão vindo, acontecendo: grandes catástrofes, quando na verdade, nem são. a gente que tende a pensar que ok, o mundo vai acabar amanhã. (por “a gente”, eu quis dizer eu. antes que algum doido desses que andam por esse blog peça revisão de texto berrando, Jorge Lafon Style: A GENTE NÃÃÃÃÃO!!!!).
o que eu quero dizer é que eu não sei de nada que eu quero, aí eu vou fazendo das coisas que surgem meras tentativas de algo-que-poderia-funcionar. é assim que tem que ser, né? já diria Caio F.: “não sei, deixo rolar. vou olhar os caminhos, o que tiver mais coração, eu sigo”.
eu lembro que uma vez eu viajei pra Salvador e tava almoçando sozinha em algum shopping, esperando a hora pra encontrar umas amigas pra fofocar, comer mais, rir e bagunçar e eu tava tão só, tão só, que devia ter um neon na minha testa que fazia todos os passantes olharem pra mim e pensarem: coitada, sozinha…
e nesse meio tempo em que eu me sentei com minha bandeijinha do restaurante, cheia de gordura trans, coloquei meu guarda-chuva de bolinhas vermelhas na cadeira do lado e liguei o mp3 player e como qualquer pessoa que está sozinha e sem pressa, comi e observei as pessoas ao meu redor: tão perdidas quanto eu.
tinha o grupo de adolescentes com camisa de vestibular, berrando, tirando foto, jogando a pedra de gelo do refrigerante no outro e tirando foto disso; tinha o casal bonito-modelo-da-vogue, que não trocavam uma palavra durante a refeição, o que sempre me passa uma impressão de vazio, de estou-aqui-contigo-só-pra-constar-mas-eu-quero-magia-e-vc-tá-enrolando-seu-macarrão-nessa-tranquilidade; e tinha esse cara, que foi quem mais me chamou atenção:
ele era dono do restaurante da frente. um fast-food qualquer, aleatório, não importa. o que importa é que ele estava com uma urgência de ______ (não sei dizer de que: alguém cético poderia dizer que ele queria clientes, eu digo que ele queria atenção, afeição, qualquer vestígio de carinho, de aceitação, de agradar – verbo transitivo indireto – alguém).
ele não ficava regulando os funcionários, ele não ficava babando o ovo dos clientes, mas ele sorria pra qualquer pessoa que o olhasse, o que me lembrava um político nas épocas de eleição e me fez até rir em alguns momentos. mas ele não queria votos, ele queria recíproca. e algum cliente reclamou que o macarrão tava frio e ele foi lá e esquentou o macarrão e a garotada do terceiro ano pediu mais gelo, e ele foi lá e pegou o gelo e eu, com meus fones no ouvido e meu prato de gordura trans (indo direto pra minha bunda em formato de celulites) fiquei olhando e pensando se era só eu que tava sentindo o desespero daquele moço. ou será que eu tava desesperada por qualquer motivo e os desesperados se reconhecem. ou, principalmente, que se eu sentisse daquele jeito, que se eu seguisse algum caminho que me levasse aquela coisa que pra mim era uma urgência latente e desesperada de qualquer coisa, eu não ia conseguir controlar uma mísera linha de pensamento. não ia organizar nada que fosse cerebral, racional, muito menos emocional.
o que eu quero dizer é que no dia que, espero que não chegue, eu disser que tô me sentindo como o cara do restaurante de Salvador, eu peço, por favor: me dêem paz, um caminho ou me internem, que eu não quero jamais sentir o desespero que eu senti naquele moço.