A noite em que eu cheguei em casa você deitada no sofá, às 3h da manhã. Chiado de tv fora do ar. Parecia que você tinha crescido de repente…você virou uma mulher enorme, cresceu feito um anúncio , ficou do tamanho da casa e eu fiquei pequeno. Um menino. Eu fui diminuindo e você crescendo…
Lembro exatamente o dia tal daquele mês de Fevereiro de dois mil e tantos, em que seu cabelo cheirava a condicionador de baunilha e seus elogios eram os mais tortos que eu já ouvira. Você me mordia as bochechas e aquilo só podia ser sinônimo de um gostar grande.
Ela parou ontem…ou foi anteontem, ou transanteontem? Quando ela parou de me amar? Igual a um relógio que pára…ela parou de me amar!
As mulheres…as mulheres são umas putas escrotas mais malvadas que os homens porque elas param de amar e o homem não pára nunca de amar! O homem não pára…a mulher pára!
A que horas minha senhora, você parou de me amar e começou a amar fulano de tal?
- Bem, eu estava ouvindo Jobim ou seria Dylan o da ocasião…e eu parei de te amar! Assim, de repente. E passei a amar fulano de tal.
E eu? Eu? Et moi?
- De noite todos iam dormir e eu ficava na cama: quem sou eu? Sou um ventinho? Sou um boneco? Sou um pudim que você comia de noite? E eu comecei a enlouquecer…a gostar mais e mais de ser nada…de ser ´talvez´. E a sua crueldade, a crueldade da sua desatenção…e eu esperava você de noite. As chaves, tuas chaves…e o ferrolho de porta rangendo a tua chegada…
…daqui a pouco o sol vai nascer…
“nessa janela sozinha olhar a cidade me acalma…
mas tem os olhos tranquilos, de quem sabe seu preço”

