acontece assim: às vezes eu ponho um disco dos smashing pumpkins pra tocar e me transformo naquele marido romântico vendo o vídeo do seu casamento. coisa de fã. nessas audições inspiradas, o tempo volta como um cenário instantâneo armado ao redor de mim e eu acabo resgatando as razões pelas quais fui me apaixonar por eles em primeiro lugar. mas o engraçado a respeito dos smashing pumpkins é que cada disco é como um novo vídeo de casamento. porque eu me lembro perfeitamente que eu pensava, ouvindo cada um deles pela primeira vez: esses definitivamente não são os smashing pumpkins que eu conheço. era, sei lá, como dormir com uma roupa e acordar com outra. ou tipo - dormir com um indie e acordar com um gótico. e acho que esse, ao longo do tempo, foi se tornando um dos motivos de angústia entre os críticos e de paixão entre fãs da banda: sua imprevisibilidade.
a maioria dos entusiastas de música que eu conheço, na realidade, não têm muita paciência pra bandas que se repetem a cada disco. por outro lado, tem a coisa de não mexer no time que tá ganhando, que emergiu brilhando lá da segundona, oferecendo craques no espetinho para as massas. muitas bandas conseguiram construir uma grande carreira, prolífica e inventiva, sem mudar de cara. tipo os ramones, que inventaram a roda e não precisaram reinventá-la. e tem bandas que, bem, são o david bowie. e daí tem aquela gente nostálgica que fica perdida no meio das metamorfoses e acha que esse negócio de mudar de estilo é sempre mera putaria do artista. porque, por deus, será que eles não poderiam manter aquela pegada rock infestada de riffzinhos batutas do primeiro disco em todos os outros? ia doer?
e aí eu lembro do radiohead, um exemplo de jesus pregado na cruz dos anos 90-00 em função desse capcioso fator-mudança. saindo do auge dourado de seu pop perfeito pra se arriscar no campo da desconstrução com o “kid a”, o radiohead pagou de temperamental pra meio mundo da música – porque queria aparecer com uma quebra tão brusca, porque queria forçar uma transformação, porque não é certo fugir dos fãs dessa maneira e coisital. por deus, ia doer se eles tivessem feito todas as músicas na guitarra, com refrões pra cantar junto, e continuassem sob a glória de sempre? bom, a julgar pela volta que eles ainda não fizeram ao estilo que os consagrou, parece que, é, ia doer. porque, depois de vivenciarem a glória, talvez ela não estivesse mais sendo tão recompensadora assim pro grupo na forma como apareceu (e tem aquele documentário, o “meeting people is easy”, que atesta mais ou menos isso). então o “kid a”, tortuoso e anti-pop como foi taxado, pareceu respeitar essa continuidade lógica nos sentimentos dos homens por trás da até então infalível marca radiohead.
e acontece assim: às vezes as pessoas esquecem que as transformações podem ser naturais. provavelmente billy corgan, o chefe dos smashing pumpkins, se divertia com a repercussão confusa dos seus discos. mas devia ficar tão puto quanto, quando era cobrado a continuar se remetendo a seus trabalhos anteriores toda vez. em outras palavras, quando era cobrado a continuar sendo o mesmo cara. tipo o los hermanos com o disco novo e por aí vai. claro que o problema de parecer diferente, de estar entrando na menopausa e essas coisas, É dos los hermanos, eu gosto do que eles me oferecem SE EU QUISER, NÃO PRECISO lidar com isso e posso continuar procurando prazer EM OUTRO CABARÉ. mas tem gente que quer a banda porque quer e torce o nariz pro simples fato de eles estarem mudando. aquelas mesmas pessoas que têm vontade de trancar seus filhinhos em jaulas para sempre quando seus hormônios começam a bater.
e, como sempre, eu falo um monte de coisa pra chegar num fim de post cheio de putaria reflexiva trivial sobre a vida das pessoas. mas é isso. mudar é um negocinho de mierda. principalmente por causa daquele outro negocinho de mierda chamado rejeição alheia implacável. porque você tá ali na mesa com seus amigos, supostamente se divertindo, mas paranóico, apitando que nem uma chaleira, com aquele pensamento eterno: caralho, cadê aquele eu que ia arrasar com essa deixa agora? tem vezes que a gente não se conforma em não ser mais o piadeiro e não percebe que um novo talento como a sinceridade, por exemplo, brotou desse chão árido. a gente não se perdoa por estar mudando. se apega ao período áureo de nossas carreiras de seres humanos e tenta reproduzir esse safadinho eternamente. aqueles gestos, aquele jeito de falar, aquelas piadas, aquele look, aquelas crenças inabaláveis, aqueles sonhos, todas aquelas coisas que os nossos fãs adoram e pelas quais nos acolhem. e a gente se frustra porque não respeita o novo momento, não respeita o potencial das nossas fases, a seqüência lógica dos nossos sentimentos. sofre mais por negar a mudança do que por mudar. sofre por não aceitar que pode ser impossível repetir naturalmente uma fórmula de sucesso – e tem vontade de se matar quando tenta em vão repeti-la caprichosamente.